Um custo arriscado

Entidades ligadas ao agronegócio vêm observando que o produtor deve redobrar cuidados e recorrer a cálculos precisos antes de arrendar terras para plantar. Fatores como endividamento, alto custo da formação da lavoura e incertezas quanto aos resultados devem ser levados em conta.


Esta é a época do ano em que os produtores rurais recorrem às calculadoras para planejar a próxima safra de verão e os desembolsos que serão necessários. Além dos custos variáveis, como insumos e serviços, muitos deles têm de considerar um item de peso na planilha de despesas: o arrendamento de terras. A prática é comum no Estado e destacase nas lavouras de arroz, nas quais 70% dos produtores são arrendatários.


Embora os valores para locação de áreas agrícolas variem muito de região para região, lideranças do setor consideram que este item têm fugido da curva nos últimos anos e se tornado um fator de alto risco diante de margens encolhidas de rentabilidade. “Existem casos que beiram a irresponsabilidade”, avalia o presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja/RS), Luis Fernando Fucks.


Segundo a Aprosoja/RS, os arrendamentos podem custar até 25 sacos de soja por hectare em locais com alto potencial produtivo do grão, como Cruz Alta e Passo Fundo. Em outras regiões, a negociação se estabelece na casa dos 7 a 18 sacos por hectare. O desembolso é considerado “perigoso”, já que a média de produtividade da oleaginosa do Estado foi de 55 sacos por hectare na safra 2018/2019.


Já na cultura do arroz, o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) projetou o custo médio com arrendamento em 14,8 sacos por hectare. Mas em alguns casos esse componente pode alcançar a faixa dos 30 sacos, dependendo da disponibilidade e acesso à água para irrigação.


“De maneira geral, são valores muito elevados para as condições de mercado, de rentabilidade que se tem e de custos de produção”, avalia o economista- chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz. “Se a safra é maravilhosa, tudo bem. Mas qualquer coisa errada pode ser o início de um problema bem grave”, alerta.


Diante dos custos de produção – que são formados também pelos adubos, agrotóxicos, sementes, assistência técnica, energia, mão de obra, combustível, frete e outros – e do cenário de endividamento agrícola, o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz), Alexandre Velho, orienta os produtores a revisarem os contratos de locação que não sejam condizentes com a realidade. A recomendação, inclusive, vem de cima.


Segundo Velho, o governo federal tem cobrado que os orizicultores melhorem a gestão dos seus negócios e tentem rever os arrendamentos como contrapartida para uma possível renegociação de dívidas, medida há bastante tempo solicitada pela categoria e que se encontra em fase de estudo nos ministérios da Agricultura e da Economia. “O governo quer que o produtor seja mais eficiente nestes dois pontos por entender que são itens que ainda podem ser mexidos da porteira para dentro”, explica o dirigente.


Apesar de a Federarroz não se envolver na relação entre arrendante e arrendatário, Velho considera importante o proprietário de terras enxergar o locatário como parceiro. “Não adianta cobrar caro demais e o arrozeiro quebrar em dois anos. Ambos perdem”, adverte. O diretor de Mercado da Federarroz, Marco Aurélio Tavares, também entende que a atual situação demanda rediscussão do arrendamento no Estado. “Sabidamente, o arroz está passando por uma grave crise e uma parceria entre estes atores ajudaria a mitigar riscos”, acredita.


No entanto, uma tendência dos últimos anos acabou reduzindo o poder de barganha quando o assunto é arrendamento.


Sojicultores capitalizados do Norte do Estado têm migrado para a metade Sul em busca de terras e acabam cobrindo ofertas de valores. Dados do Irga mostram que o tamanho da área de várzea ocupada com soja cresceu de 11 mil hectares para mais de 300 mil hectares em 10 anos.


O presidente da Aprosoja/RS recomenda que o produtor, ao fazer a opção de buscar novas áreas, tem que considerar as médias de produtividade daquela região em primeiro plano e não pensar exclusivamente nas questões de mercado como liquidez e preço internacional. “Cada um deve saber o quanto pode pagar, mas a rentabilidade é tão pequena que os riscos são altíssimos, isto tem que ser considerado”, adverte Fucks. Segundo levantamento da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro/RS), a expectativa de rentabilidade da soja para a safra 2019/2020 é de 12,28 sacas de 60 quilos por hectare em uma lavoura que alcançar colheitas de 60 sacas por hectare.


O especialista em Direito do Agronegócio, advogado Ricardo Alfonsin, recomenda que o produtor coloque tudo na ponta do lápis e ambos os lados – proprietário e arrendatário – tenham bom senso na negociação. “Eles têm que chegar a valores que sirvam para os dois. Não adianta elevar demais o arrendamento se depois corre o risco de não receber”.


O vice-presidente da Farsul, Elmar Konrad, lembra que ciclos anteriores até permitiam o fechamento de arrendamentos por valores maiores, mas entende que hoje é o momento de o produtor encontrar um ponto de equilíbrio.


“Pessoas que não fazem a conta estão parando de trabalhar”, adverte.




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